Mulheres que se apaixonam por gays

Não é muito difícil de acontecer de uma mulher ou uma menina se sentir envolvida por um amigo gay. E por que será que isso ocorre?

Não consigo compreender ao certo ou dar forma total as respostas pois, talvez, eu seja um gay que me identifico pouco com a figura feminina. De qualquer forma, acho que vale um ensaio já que esse tema acontece com bastante frequência na vida de algumas mulheres e na vida de alguns gays.

A situação, de uma amiga envolvida por mim, já ocorreu uma vez, embora os verdadeiros sentimentos pairaram apenas nas entrelinhas ou sugestões até hoje. Talvez por orgulho, talvez pela simples falta de clareza mesmo.

As mulheres muitas vezes se identificam com um amigo ou um colega gay e tudo começa com uma boa amizade. Parte dos gays, aqueles que têm mais afinidade e intimidade com mulheres aprendem a entender as sutilezas e as nuances do ser feminino e, muitas vezes, correspondem com argumentos, ideias e atenção numa frequência “perfeita” para a mulher. Sabemos o quanto é difícil a medida certa do sexo feminino! E os gays as vezes captam.

O homem gay em essência difere apenas do gosto do sexo que é pelo igual em relação ao homem heterossexual que adora o sexo oposto. Mas, por algum ou muitos motivos, o homem gay na maioria das vezes costuma também negar características “rudimentares” ou machistas do homem heterossexual, como a truculência, a falta de delicadeza, a tendência a galinhagem e, principalmente, a maneira desatenta do homem heterossexual perante as mulheres. O amigo gay, acima de tudo, sabe dar atenção, sabe oferecer um abraço apertado e sabe a hora de fazer um carinho. No mínimo sabe vender muito bem essa imagem! (rs)

[Curioso que esse homem gay, tão hábil com as mulheres, na hora de desenvolver seu próprio relacionamento com outro homem muitas vezes acaba se confundindo! rs]

Posso relatar meu caso com minha amiga “Bia” para ilustrar esse post. Cursamos o colegial juntos e no começo ela me odiava (rs). Dizia que eu era grosso, antisocial, nerd e não me queria como parte da turma. Por um lado ela tinha razão. Eu tinha vivido nove anos no Colégio Pio XII, de freiras americanas e burgueses do Morumbi para entrar numa escola estadual de bairro. O choque foi grande: cultural, social, estético e tudo mais. Para um adolescente de 16 ou 17 anos o preconceito servia como proteção. Nos primeiros meses de colegial eu era meio que um caramujo reconhecendo o território e, assim, essa imagem de antipático faria até um sentido (rs). O de nerd até hoje é fato, reconheço. Só que agora sou geek, muito mainstream (rs).

Com bastante esforço e jeito fui quebrando aquela imagem grosseira que a Bia fazia de mim. Morávamos bastante próximos e naqueles anos de colegial, que a gente mais curtia a vida do que estudava, passávamos um bocado de tempo juntos: era cinema, passeio no Shoppping, churrascos, jantares, almoços, viagens ao sítio do amigo “rico” e muita diversão. Estudar que era bom, terminava em baladas adolescentes na garagem de alguma das casas ao som de música dance (rs).

Fui me tornando homem e a Bia, mulher. Realmente tínhamos uma grande afinidade até a fase da faculdade quando todos dessa turma se distanciaram um pouco. Mas eu e a Bia continuávamos a nos ver com mais frequência. Para meus amigos era óbvio que tínhamos alguma história maior. Mas para mim, que carregava a verdade da homossexualidade do lado de dentro, essa hipótese era muito remota. Jamais imaginara transar com a minha amiga Bia! Com toda convicção a colocava num altar do puro afeto e da fraternidade. Sexo, jamais. E como eu ia saber que as mulheres se encantavam por essa mistura de afeto autêntico e amizade? Tonto como eu, jamais (de novo)!

Fomos crescendo e com meus 23 anos a Bia foi a primeira pessoa a saber da minha sexualidade. A considerava uma irmã. Lembro que numa noite, no meu carro em frente de sua casa depois de uma volta qualquer, resolvi contar a verdade. A aceitação foi imediata, embora ela se expressasse com grande surpresa. Não imaginava que poderia ser verdade, mas entendia o sentido da coisa a medida que fui expondo a história toda. Entendia a representação do meu “amigo” Lutier e aos poucos minhas palavras foram criando sentido. E eu falava como contar para ela era importante pois assim alcançaríamos uma intimidade muito mais valiosa.

A amizade continuou forte e ela me acompanhava nas primeiras baladas GLS. Aliás, foi na Bia que o Beto chegou para conversar. A Bia ficou impressionada com a beleza do Beto e esse foi o mote para que os dois começassem a bater um papo. Isso, há mais de 10 anos atrás (WAF! Estou velho!)

Bia pra cá, Bia prá lá e a medida que ia me assumindo e que ia assumindo a minha empresa, fui me distanciando das pessoas e passava meu tempo livre com meu primeiro namorado, o Lutier.

Teve uma noite que ela me ligou aos prantos. Se sentia sozinha, desamparada e, naquela situação, eu não compreendia bem ao que ela se referia. Me mostrei plenamente disposto para um encontro e nos vimos. Ela estava começando um rolo com um chefe do trabalho, que era casado e tinha uma filha. Obviamente aquela verdade foi indigesta, mas mediante a sua aceitação quanto a minha homossexualidade, num sentido de troca, falei que daria todo o apoio se ela estivesse realmente gostando. Mas de fato sua posição de amante me incomodava. Não era aquilo que esperava da minha amiga. Mas até entender que eu não tinha nada a ver com aquilo, fui entender há bem pouco tempo atrás!

Sua relação passava por altos e baixos críticos. Brigas extremas, reaproximações exageradas e uma mistura bastante confusa de vida pessoal e profissional. Acabei me envolvendo no momento que seu chefe virou também meu cliente. Daí, ouvia comentários de um lado e de outro, imaturamente sem saber direito como lidar. Passaram anos vivendo nessa gangorra e parecia que precisavam me colocar no rolo!

Em 2006 eles romperam por um tempo e, como eu e Bia comemorávamos aniversários com diferenças de dias, resolvemos fazer uma festa juntos em minha casa. Ela chamou um grupo de amigos, eu chamei toda minha turma e na época eu já estava casado.

A “Coca”, uma de minhas sócias hoje tinha acabado de entrar na empresa. A Coca é uma morena bastante atraente, do tipo “beleza bruta”, feminina mas com um jeito firme, difícil de descrever. O que sei é que não são poucos os homens que a notam quando estamos na rua.

A Coca, numa situação de festa com bebidas e comidas na faixa resolve ir um pouco além. Passou mal e rapidamente, eu e um amigo a levamos para dormir num dos quartos, no andar de cima da casa. Ninguém se incomodaria com ela, ela não incomodaria ninguém.

Sem entender bem, minha amiga Bia e suas duas primas resolveram tirar um sarro da Coca: sobem até o quarto, enchem seu rosto de pasta de dente e colam seus olhos com spray de cabelo! Coca desfalecida, um amigo me dá um toque e vou conversar com a Bia: “Mas Bia, por que você está fazendo isso?!”.

Bia: “Essa menina estragou minha festa! Acho uma baixaria uma menina ficar bêbada desse jeito!”.

Eu: “Pára com isso Bia, ela nem baixaria fez. Passou mal no sofá, dormiu e já trouxemos para o quarto!”.

Bia: “É, vai ficar defendendo ela, seu troxa?!”

Eu: “Bia, não vamos ficar discuntindo agora, vai. Pára com isso”.

Ela desce as escadas batendo o pé, se junta em meio a todos os convidados e lança para mim assim: “Vai tomar no cú, meu. Fica defendendo essa menina!”.

Ariano versus ariana. Na hora que ela me manda “tomar no cú” meu sangue bate na tampa e acabo com a festa dela na hora. Bia leva todos seus convidados embora e a minha turma continua. Perplexo, cheguei para nossos amigos em comum e questionei: “Meu Deus! O que deu na Bia?!”. E meus amigos, longe do meu marido lançam: “Ué, MVG, você não sacou?”.

Olhei para eles com uma dúvida maior ainda e questionei: “Como assim, ‘não sacou’?!”.

Meus amigos: “Ciúmes, MVG. Ciúmes de você”.

Confesso que essa hipótese de ciúmes começava a fazer maior sentido, embora fui entender com mais clareza muito tempo depois. Talvez eu não quisesse enxergar ou aceitar a possibilidade da minha melhor amiga estar envolvida por mim. De fato ela nunca expressou um sentimento maior, nada que fosse óbvio, literal ou claro, embora ela sempre me achasse um lerdo.

Depois desse incidente ficamos anos sem falar. Apesar de continuar a morar perto nunca mais chegamos a nos cruzar por aí. Em 2010 resolvo mandar um e-mail a ela dizendo que tudo estava tranquilo, que não havia ressentimentos e que, se por ventura a gente se cruzasse na rua, não gostaria de virar a cara ou passar batido.

Minha amiga Bia responde da seguinte forma: “Está tudo bem. Vivíamos como no seriado Dawson’s Creek. Você era o Dawson e eu era a Joey”.

Foi nesse comentário, mesmo que ainda em entrelinhas, anos depois de um convívio bastante intenso que terminou de uma maneira radical, que fui definitivamente entender o que se passava com a minha amiga Bia. Tenho um certo receio de encontrá-la, muito provavelmente pelo fato de poder despertar nela um sentimento mal resolvido. A paixão por mim, lerdo ou não, nunca foi evidente. Mas por parte dela era isso, como em um seriado adolescente onde duas pessoas que se amavam muito, no final, terminavam separados.

Eu definitivamente amei minha amiga Bia, mas era livre ou em uma outra sintonia, longe da possessividade de uma paixão. Da parte dela talvez não fosse o mesmo.