Minha Vida Gay – Pausa para um descanso

Último trimestre do ano e começa a pintar os sentimentos que 2012 voou. Foi um ano que quase não lembrei que sou gay, ou melhor, que ser gay para mim é um detalhe, uma fatia de um todo.

Tem leitor que está vivendo intensamente essa realidade hoje, conhecendo o meio gay ou permitindo-se vivenciar as nuances da rotina gay e gay friendly. Tem leitor que vai virar o ano, mais um ano, e praticamente não desenvolveu ou não liberou nada ou quase nada dessa realidade íntima da sexualidade, guardada a sete chaves, guardada para si ou para poucos.

Outros já vivem essa realidade gay compulsivamente, as vezes cansam do modelo, mas quando estão dentro da bolha liberam seus desejos, rompem conceitos e valores, contabilizam beijos, casos passageiros, histórias mal contadas e gozam da vida num puro exercício da permissividade. Amizade, coleguismo, ficante, paquera… tudo pode ser uma coisa só!

Outros, outros, já viveram muito do meio, se esgotaram e estão descobrindo como recomeçar.

Alguns estão em casa, com suas esposas ou namoradas e, num lapso fogem para o Grindr, Manhunt ou Gaydar para personificar o tipo “macho VS. macho”.

Outros estão preparando o jantar para o marido, de relacionamento de 5, 7 ou 10 anos, vivem o cotidiano de um casal, que pode ser uma relação mais heterossexualizada, mais aberta ou da maneira que a relação seja saudável para o par. Alguns pensam em filhos, outros preferem cachorros ou gatos, mas independentemente das escolhas, buscam preservar a relação sob seus modelos.

Alguns gays, leitores adolescentes, formam dezenas ou centenas de um caso típico: estão fortemente apaixonados por um colega da escola e querem saber, de todas as maneiras, se há alguma chance! Boa referência para mim e para vocês que passam a notar um jovem gay muito mais autônomo quanto a sua própria identidade.

Não poderia deixar de citar o gay que é apaixonado pelo amigo hétero. Para esse vale um: “Acorda, Beesha!”.

As poucas vezes que lembrei de minha sexualidade esse ano, que sou gay e que isso poderia ter uma carga positiva ou negativa, intensa ou obscura, foram em momentos pontuais. Revi alguns amigos, encontrei outros por coincidência, me revelei para os novos da minha equipe, levei algumas questões sobre a sociedade gay a minha terapeuta, tratei de alguns assuntos com meu namorado e, sim, muito desenvolvi no Blog MVG, com alguns posts bons e outros nem tanto assim.

Não poderia deixar de citar novamente o encontro que se realizou no final de semana passada com três leitores. Foi um contato com o meu “ser gay” de maneira inédita, nova, diferente e, como já disse, enriquecedora. Me sinto ainda muito grato pela oportunidade e pela chance de compartilhar presencialmente minhas experiências numa vibe do “vai que dá”. Bacana também reencontrar o “Charosk”, amigo muito querido, que cruzou comigo quando saíamos do Athenas depois desse encontro.

Feriado do dia das crianças será para brincar um pouco, do tipo de brincadeira que gosto: amanhã me encontrarei com “Tablito” e “Ding” para combinar a viagem para uma prainha escondida no litoral do Rio de Janeiro com acesso apenas por trilha ou por barco. Meio roots, meio o desejo de estar comigo mesmo, com o namorado e com aqueles que compartilharão a aventura. Meio vontade de silêncio, do por-do-sol, do céu estrelado, da cachoeira e da contemplação.

Meio vontade da paz, que não tem a ver com balada nem festas de família.

Darei a mim a oportunidade de estar sozinho, embora bem acompanhado.

Acho que todas as pessoas, heterossexuais ou gays, enrustidos, assumidos ou adoradores do meio, deveriam se dar a oportunidade de encontrar esse estado, de estar em paz consigo ou em paz com o silêncio da alma. De poder contemplar o belo sem necessariamente cobiça-lo. De poder tranquilizar por um dia, que seja, com o que se é ou com o que se tem.

Paz consigo não tem a ver com o sentimento de um desejo não realizado, de uma ordem religiosa, do exercício do ego nas festas ou da esperança de algo que ainda não veio.

Paz consigo tem a ver com ter felicidade com o que se é sem precisar necessariamente de um ato ou reação externas para haver felicidade. Tem a ver com o encontro da simplicidade. Tem a ver com o “aqui” e o “agora”.

É difícil? Com o perdão da palavra: pra cacete! Tive que viver muitos altos e baixos dentro de relacionamentos e fora deles para ter um pouquinho mais de consciência sobre isso que estou falando. Tive que sair do eixo para realinhar algumas vezes, para me reencontrar mais preparado, sem me perder dos meus valores. Ainda estou aprendendo…

E agora, e não faz tanto tempo assim, que percebi um pouco mais dessa ideia de “não lembrar que sou gay”. Não lembrar que sou gay confere um tipo de paz.

Essa coisa de ser gay, para a maioria de nós, independentemente da fase que vivemos, é sempre muito assunto. A gente vive essa ideia de ser gay, de identidade sexual, de possibilidades e anseios com isso durante muitos anos da nossa vida. Ser gay vai da contenção extrema à permissividade máxima. E porque tratar a nossa homossexualidade 8 ou 80?

Por todas as questões sociais, emocionais, psicológicas, familiares e filosóficas que trato pelo Blog.

Mas até quando tem que ser assim, um sufocamento ou uma libertinagem? Até quando alguns se escondem no casulo e outros partem para a loucura? Ah, a loucura, coisa de jovem, da juventude, dos hormônios e da vontade de ser algo a alguém. Coisa do Cazuza, da vida louca, da vida breve. Coisa de aprovação.

Já que eu não posso te levar, vida, quero que você me leve…

Foi assim, durante muitos anos da minha vida.

Queremos tanto ser “normais”, mas lembramos ou auto-afirmamos tanto que somos gays! Queremos, as vezes, até viver a vida do outro! “Produção, assim não funciona!”.

Acho que, talvez, tenha me encontrado o suficiente nesse momento.

Vida gay – Sites de relacionamento, faca de dois gumes

Essa semana recebi um relato num dos posts aqui, no Blog MVG. O leitor narra a situação de ter conhecido alguém diferente por um site de relacionamento gay, do interesse de algo mais real e sério com o pretendente e das influências da “vida virtual” no nosso cotidiano (real).

Relato de Júlio:

Caríssimo, boa noite! Primeiramente, parabéns pelo blog. Sou acompanhante assíduo dos feeds por e-mail, sempre gosto de começar o dia lendo os posts que são enviados, todos com excelente conteúdo e coerência única com nossa realidade.

Tenho um caso que gostaria de compartilhar e ver sua opinião, para que eu possa balizar com a minha e ver melhores formas de lidar com essa situação…

Tenho 25 anos, sou de Belo Horizonte e tenho uma vida mais no armário. Meus amigos mais próximos sabem da minha situação quanto ao direcionamento sexual devido a proximidade comigo. Não forço, e eles acabam sabendo devido a esse dia-a-dia comigo. Me sinto bem assim e vou continuando numa boa.

Devido a essa característica, acabo limitando um pouco o “conhecer novas pessoas” e utilizo um site de relacionamento para tal. Conheci uma pessoa nesse site e estamos nos dando muito, mas muito bem nessas ultimas semanas. Porém, algo sempre me deixou um pouco “antenado” que é a questão do uso desse site. Sabemos que o ser humano é falho e de carne fraca (quando quer também…) e, por estar com ele, acabei deixando o site de lado, até deletar meu perfil. Ele comentou comigo que não deletaria o perfil, pois tem uma “conta premium” e isso começou a atiçar minha curiosidade.

Esses dias ele deletou as fotos dele e colocou como descrição que quer amizade. Fiz algo muito errado e criei um perfil “fake”, para ver até onde ele vai com essa questão de amizade. Comecei a conversar com ele e ele, subitamente, inseriu novamente todas as suas fotos.

Antigamente, caso algo me incomodasse, eu simplesmente dava um fora e bola pra frente, pois há a questão da confiança, etc. Porém, não temos relacionamento assumido e não posso cobrar dele algo devido a isso, mas não me sinto muito à vontade com ele nessa situação atual.

Penso em lidar da melhor forma com isso, a agir de forma diferente, pois gosto muito dele e sempre que conversamos no decorrer do dia eu sinto isso dele também, mas com um pé atrás devido a essa situação e a também já ter sofrido um bocado no passado com isso.

Temos horário diferentes, ele trabalha no período noturno, então conversamos normalmente 2 vezes ao dia via cel e no restante do tempo com sms. Nos vemos nos fins de semana e sempre é espetacular. Reparei que ele é assíduo no site no período da manhã, quando trabalho.

Por gostar dele, penso que talvez posso tentar lutar por ele, e demonstrar o quanto gosto dele, para ver se muda, mas ao mesmo tempo penso que, se nas nossas conversas ele demonstra esse gostar extremo por mim, não justifica ele continuar nessa “caça” por outro, mesmo que seja para “amizade” em um lugar que sabemos bem que é uma tentação.

O que você acha? Sei desse meu erro em querer ter investigado, mas isso me fez ver que nem sempre o que parece é. Pode ser tudo também coisa da mente, mas qual o balizador para saber se é verdade ou não?

Ele é mais velho, tem 30 anos, mora sozinho e recentemente que está nesse “mundo virtual”, maravilhado por ter inclusive me conhecido através dele.

Forte abraço,
Júlio / BH


MVG:

Oi Júlio,
tudo bem?

Esse seu relato é uma das reações possíveis de relacionamentos que começam pela Internet, um pouco de como comento no post “O vício de Manhunt, Gaydar e Grindr”.

Note que existe uma “hábito virtual” dos dois lados: por um lado, seu pretendente acaba de descobrir possibilidades por esses recursos virtuais e interativos. Parece entusiasmado com a nova realidade de contatos que, inclusive, justifica o encontro entre vocês. Por outro, você criou um perfil fake, hábito também de muitos usuários, com teor investigativo (rs).

Não estou afirmando que você faria isso, mas essa situação me fez lembrar de alguns amigos e conhecidos, heterossexuais e gays, que têm o costume de ter todas as senhas de e-mail, Facebook, etc, dos seus respectivos namorados(as). Esse pseudo controle é uma das maneiras que muitos casais encontram para buscar um tipo de segurança. Mas convenhamos: numa realidade tão conectada, de computadores, notebooks, celulares e tablets, será que dá para garantir alguma coisa? Não dá e as pessoas que ficam ligadas nas senhas e logins de seus respectivos podem tornar-se “escravos” desse hábito de vigília.

Realmente acho que é importante quebrar com a mania de entrar nesses sites quando se começa uma história mais séria. Não diria que você deva lutar propriamente para que ele mude de hábito, mas traze-lo para o mundo da realidade é algo a se pensar. De leve, porque se for uma luta, depois você vai cobrar! O universo desses serviços e aplicativos de relacionamento, além do vício de hábito, nos envolve porque enche nosso ego, mexe com o fetiche do desconhecido, da vontade de desvendar o outro lado da tela e, não menos importante, mexe com nosso imaginário e idealizados. Tratamos uns aos outros como pratos de um cardápio! Será que efetivamente precisamos de tantos “amigos” assim no momento que estamos namorando?

Será que precisamos manter uma ou mais “portinhas” abertas para o mundo virtual/real, no momento que temos um outro mundo inteiro de intimidade para desvendar a dois?

É provável que muitos entendam como nada demais manter contatos virtuais com pessoas, mesmo namorando. Eu não sei bem. Acho até possível esse contato, desde que seja conversado e acertado em comum acordo.

Mais uma vez, não existem modelos pré-definidos ou estabelecidos. O nosso assunto então, Júlio, recai novamente na questão da conversa. Vocês estão começando uma história, dando forma e formato para um possível relacionamento mais sério. Esses formatos devem ser divididos, conversados para que ambas as partes se entendam em paz e tranquilos com o relacionamento.

O fato de você estar gostando um pouco mais desse rapaz não justifica os bons ou maus hábitos por parte dele. Talvez ele nem perceba que isso possa incomodar a você porque, de fato, nossos valores e percepções de mundo são sim diferentes! Se a gente não abre o jogo, seja para esse incômodo dele manter um contato virtual, seja para conciliar os horários de trabalho, amizades, e tudo no relacionamento, acaba deixando de existir o próprio valor de relacionamento que inclui ajustes, acertos e concessões por intemédio de atitudes.

Qual o ritmo e as vontades do seu pretendente? Quais são os seus? Essas vibrações entre você e ele estão abertas para que se chegue num concenso? Já está no tempo de existir esses tipos de acordos? Vocês já são íntimos suficientemente e estão entregues para a relação? Como comentei, o fato de você estar gostando a mais dele não quer dizer que ele esteja entendendo e percebendo isso…

De qualquer forma, pessoalmente, acho importante a gente puxar o freio de alguns hábitos quando se está envolvido ou querendo algo mais sério com uma pessoa. É complicado duas pessoas se gostando suficientemente, mas uma ainda preferir ir para a balada uma vez por semana e o outro preferir ficar mais em casa, por exemplo. E isso as vezes tem a ver com compatibilidade ou falta de senso de construção de um relacionamento. Depende de quem são as personagens, depende dos pontos de vista.

Para mim funciona assim: quando estou solteiro, ou pelo menos até a última vez que estive solteiro, eu soltava o freio de muitos hábitos: baladas, noitadas, muita pista, passeios com amigos, coleguismos e passava a maior parte do tempo na “vida urbana GLS”. Quando namoro, normalmente entro num processo de “devoção” ao meu namorado: conheço família, fazemos viagens para todos os cantos, conheço amigos, conhecemos lugares diferentes e, normalmente, dou mais espaço para o dia do que para a noite. Mas isso é particular, o que significa que não é de todos e, as vezes, a maioria não tem essas percepções. Esse meu modelo não leva à perfeição e esteja certo disso! (rs). Surgem perrengues também (e o meu namorado que o diga! rs).

Resumindo, querido Júlio, acho que no seu relato nem é bacana o seu pretendente ficar com as portas abertas para esse mundo virtual da pegação, nem é bacana você nutrir desse mundo criando um perfil fake para sondar o rapaz! rs.

Acho bacana vocês trazerem a história de vocês para o real, menos fantasioso de ambas as partes e, para isso, é importante o básico: conversa! Quais são os propósitos das pessoas? Quais são os seus propósitos?

Abraços,
MVG

O vício de Manhunt, Gaydar e Grindr

Sites e aplicativos para contato entre gays são garantia de muitas visitas, centenas de milhares de perfis fakes e verdadeiros, famosos “camarões” sem cabeça, fotos de membros, peitos e bundas até onde a fantasia permitir. Acontece de tudo um pouco e as vezes as ações terminam em encontros para o sexo. Porque existe essa fixação? O que nos leva a essa mania?

Acho um pouco simplório demais resumir que o homem gay é ávido por sexo apenas pelo fato da existência do instinto animal. Resumir o assunto nessa afirmação é quase como um consolo e uma eterna desculpa, como se essa ligação do homem gay e heterossexual com o sexo fosse algo inevitável, regra absoluta, imutável.

(Curioso falar em imutabilidade quando gays aparentemente procuram sempre dinamizar a vida, não?)

Poderia ser assim enquanto animais. Mas e hoje que há milênios já somos dotados de consciência?

A medida que vou refletindo sobre o assunto, vejo essa realidade como um tipo de sufocamento, uma inércia. É como se fôssemos dependentes, acorrentados e fadados a uma putaria. É como se esse tal de DNA primitivo dominasse a nossa essência e, na fachada, restasse-nos apenas o jogo de aparências, o apelo excessivo à estética, o status e o poder. Jogo das aparências porque raros são os gays que assumem sua frequência no Manhunt, Gaydar e Grindr. Mas a sensação que fica é que muitos estão com seus perfis falsos, verdadeiros ou limitados, numa espera, numa busca ou sabe-se lá o quê.

É como se a circunferência de nossa vida íntima não tivesse mais de 10cm de diâmetro ou a nossa individualidade se resumisse apenas a isso: um tipo de prazer obscuro, quase maníaco e perturbador, digno da representação no filme “Shame“.

Poucos ou pouquíssimos são aqueles que numa tentativa remota procuram conhecer pessoas. Muitos ou quase todos se envolvem pelo prazer virtual de corpos, figuras, dotes e chats. Privilegia-se a fantasia mais uma vez, negando o contato mensurável. Alguns se desencorajam a conceber um encontro real e alguns outros vão até o fim, que pode ser profundo ou raso, dependendo do peso de consciência. Eis um movimento transitório, do tipo de nem lembrar o nome.

Manifesta-se as vezes até um prazer por não lembrar o nome, o que ridiculariza ao extremo a si mesmo.

Gays, como todos ou na marioria das vezes tem pais, convívio familiar, colegas de trabalho e amigos. Quando estão próximos a esses atuam bem. Quando solitários em frente ao notebook ou ao celular optam por esses relacionamentos virtualizados, contabilizados e fichados como se na esfera da individualidade a tela ligada nesses canais fosse a única porta para o prazer ou para o outro íntimo, rápido e volátil.

Entra-se uma vez como curioso. Entra-se duas, três e de repente imita-se os padrões: rosto, corpo sem cabeça, pinto, bunda, “casal procura”, peitos e passamos a esperar ansiosamente por uma audiência, uma aceitação alheia que nos atraia e um texto do tipo: “Gostei de vc. Quer tc?”.

E é assim, sempre assim e somente assim há décadas. Sexo fácil para aqueles que se dispõem a se encontrar. Sexo virtual garantido e asséptico para quem puxa para a webcam e casos raros do “algo mais” daqueles que buscam incansavelmente pelo “algo mais”. A lista de MSN fica infindável, pautada na quantidade e depois de um tempo sem valor algum.

Responsabilizar esse estado simplório nos instintos animais? Na realidade, me parece que a vida anda muito desinteressante.

Responsabilizar a sociedade que nos repreende e nos enche de bloqueios? Já tomou alguma atitude hoje para mudar sua condição?

A vida pode ser muito mais do que isso. Mas parece que homem gay é vítima de sua falta de confiança. Vítima de uma necessidade constante da auto-afirmação. Vítima do medo de ser além.

De segunda à sexta, sábado e domingo, depois da balada que termina em carreira solo, ficam essas opções.

Vazio e uma limitação eterna para o comprometimento.