Homens gays em busca da felicidade

Um gay tem três objetivos fundamentais durante a vida: entender-se como homem, entender-se como gay e descobrir diariamente o que trás sua felicidade.

A fluência e as fases dessas três variáveis são íntimas, combinadas individualmente sob a genética e as experiências de cada pessoa, o que faz da diversidade uma realidade.

Assim, sob esses três pilares, faço uma breve reflexão sobre ser homem, gay e sua busca pela felicidade.

Quando um homem é gay

Um homem quando é gay passa por diversos estágios ou fases: do descobrir de sua sexualidade, do assumir para a família, da sua relação com amigos, da primeira experiência sexual, das relações de ficante, namorado ou marido, da descoberta dos meios gays, do encontro e reencontro com a diversidade, dos apelos estéticos, das manias, dos hábitos, das saunas, das opções de sexo a três, a quatro, suruba, garoto de programa, sexo amigo, sexo com um casal, das gírias e, principalmente, da descoberta de si mesmo em níveis mais íntimos.

Essas fases podem durar do primeiro despertar do sexo, ainda muito jovem, até o final da vida. Vai depender de cada gay, de suas experiências e da mistura exclusiva de sua genética com as referências de mundo.

Um homem quando é gay “força” o condicionamento de seu gênero (geral) a sua sexualidade (particular).

Quando um gay é homem

Aquele gay que se assumiu para o mundo e para si mesmo passa por diversas experiências sensoriais em tempos e ritmos diferentes que variam de indivíduo para indivíduo, do encontro de si mesmo, da relação familiar, do contato com outros gays pela amizade, pelas transas, namoro e experiências com colegas de trabalho.

O gay boa parte de sua vida ou até mesmo a vida toda percorre os ciclos e etapas de “um homem quando é gay”, nos quais a sexualidade (gay) é a parte em evidência do seu gênero (homem). Assim, gírias, maneirismos, vícios e hábitos ficam mais restritos ao universo de sua sexualidade. São gays que vivem e convivem em predominância em lugares e com indivíduos que compartilhem a mesma sexualidade. Ou melhor, sentem-se mais a vontade quando estão com pessoas “iguais” e em ambientes gays.

Porém, alguns ou muitos gays – não saberia quantificar – passam a viver uma outra fase, no momento que se dão conta que sexualidade está contida no referencial do gênero, que é mais abrangente. Importante dizer que, quando digo “homem”, não me refiro ao “macho-machista”, mas sim a simples abrangência do gênero que não tem sempre uma correspondência óbvia com o sexo e que se pode traduzir em ser humano.

Em outras palavras, o gay quando é homem (ou humano), seja afeminado ou masculinizado, passa a perceber o mundo de maneira mais abrangente. Suas questões e o “ar que respira” não se restringe a sua sexualidade. É o gay que, as vezes, até esquece que é gay e lembra mais que é um profissional e filho, tem primos, tios e até mesmo sogros. Tem amigos da escola, do curso, do colegial e da faculdade que podem ser gays ou heterossexuais.

Tem um ciclo social sem restrições, não fica mais a vontade no meio gay, e não precisa assumir um “personagem” incomodado e parcial quando transita por grupos fora do meio. Esse gay lembra e tem a certeza que a sua sexualidade é íntima e não descaracteriza seu convívio com outros.

O gay quando é homem se incomoda menos com piadas, não se ressente com o que os outros podem achar e passa a entender que a maledicência não é uma característica exclusiva da sociedade e, sim, do ser humano que – no geral – está cheio de perfeições, mas de imperfeições também.

O gay quando é homem sente-se mais autêntico em qualquer lugar e deixa sua intimidade sexual sob quatro paredes, muito bem reservada e se apresenta em paz como filho, cunhado, profissional na empresa que trabalha, marido ou namorado.

Arrisco dizer que o “gay que é homem” é um segundo estágio de vida do “homem que é gay” pois transita no particular e no geral sem confusões ou restrições.

Sobre a felicidade

Felicidade é um tema mais humano e menos sexual ou social. Felicidade é individual e bastante independente de sexo e gênero. Ou, talvez, se acreditarmos que tem a ver com sexo ou gênero sejamos um pouco menos felizes.

Felicidade tem primeiro a ver com gostar de si para depois gostar do mundo. Felicidade tem a ver com um esforço diário, de sentir o peso de uma necessidade para depois vibrar com o prazer da superação.

Felicidade tem mais a ver com interesses pessoais e realizações por si e menos a ver com percepções ou aceitação alheia.

Tem a ver com auto-confiança, auto-estima e de quanto nos aceitamos ou nos excluímos. De quanto nos achamos diferentes ou iguais, ou de quanto isso é realmente importante para sermos felizes.

Tem a ver com sonhos que, com a nossa capacidade humana de luta e coragem, somos hábeis para materializar.

Tem a ver com a importância que damos ao dinheiro porque uma coisa é gostar de dinheiro, outra coisa é saber gastar para tornar real, inclusive, os próprios sonhos.

Felicidade é ter consciência que a única coisa certa é que a vida tem prazo para a morte. Assim, para ser feliz, é importante viver problemas para serem superados e, quando superados, reconhecer intimamente os ganhos do que outrora parecia nos trazer tristeza. Isso é saber viver.

Por fim e se possível, deixar um rastro de valores e conduta dentro de outras pessoas, talvez filhos, namorados, amigos ou colegas de trabalho pois o sentido de imortalidade, quando representamos algo ou alguma referência a alguém, também é uma fonte de felicidade.

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Menos gay, mais humano

Vira e mexe recomendo nos posts que os gays precisam fazer do diálogo um hábito, seja sobre questões entre um casal num namoro, seja o gay enrustido que está saindo do armário.

Creio que, apesar de seres humanos evoluídos e racionais, muitas vezes esquecemos dessa parte que é conversar, ou melhor, saber expressar o que está passando por dentro. A juventude, por exemplo, hoje em dia me parece mais hábil teclando do que numa conversa cara a cara. Claro que o olho no olho é mais intimidante. Mas também é mais autêntico ou quiçá mais adulto.

E a gente tende a não querer ser adulto. Ser adulto parece coisa velha, da falta de ânimo e é como se não combinasse com ser gay, com ser jovem.

Na grande maioria das vezes o casal gay “cansa” e cada um vai acumulando frustrações, inseguranças, desconfianças e esquece do diálogo, como se um ao outro tivesse a obrigatoriedade de estarem prontos. Chega uma hora que sentimentos ruins ultrapassam a razão e o próprio senso que a gente tem do companheiro se perde e surgem as brigas, os desgostos e os desentendimentos. Tudo muito fruto de nossa incapacidade de transformar sentimentos em palavras. As vezes é muito difícil transformar orgulho e rejeição em conversa. Talvez porque como gays, erguemos muita a bandeira do ego e convivemos com bastante rejeição durante a vida e aí, quando é para por pra fora esses tipos de sentimentos que também podem acontecer em um namoro, a gente fica perdido, escorrega, esquiva, não sabe como expor e talvez nem pense que precisa expor.

“Para que me ‘humilhar’ perante ao outro?”.

Mas o papel da expressão é determinante para a qualidade de qualquer relacionamento. Precisa e acho estranho esses namoros gays a distância que tenho visto por aí, que as pessoas se encontram uma vez por mês ou por semestre e constróem a relação pela Internet, por exemplo. Tão cômodo seguir esse modelo. É como viver fantasias e, sem querer, dar ênfase ao total despreparo de se relacionar. A ação de se relacionar, num sentido literal da palavra, implica fundalmentalmente no presencial. E-mails, redes sociais e programas de bate-papo deveriam ser apenas complementos a um relacionamento e não a base. A gente pode até achar que nos completa. Mas de fato nos acomoda a um nível inferior da habilidade de nos relacionar que deveria ser desenvolvida.

Tenho pautado meu namoro em muito diálogo, na ideia de além de sermos namorados, de nos atrairmos e de convivermos com o amor, somos capazes de ser confidentes, amigos. De fato para o mundo inteiro a gente pode vender uma imagem, criar uma estampa e atuar sendo assim ou assado. Mas para o namorado ou marido temos a oportunidade de nos tornarmos amigos, amantes e confidentes. Normalmente o gay pára e termina somente na “etapa amantes”, que é a primeira, que parece ser a única que dá prazer. Se a paixão acabou ou ficou duvidosa o gay tende a pular fora do barco para não ter que exteriorizar sentimentos como frustração, decepção ou orgulho, ou não ter que passar por algum tipo de rejeição, ou não ter que discutir, brigar, rever conceitos e valores. Mas afinal de contas, será que não é na hora que existem as discordâncias, conflitos e desentendimentos que temos a oportunidade de evoluir como indivíduos?

Assim, boa parte dos gays preferem viver na solteirice, alimentando-se apenas de intensidades ou namoros a distância que não nos coloca em exposição. Fugimos do cara-a-cara, do olho no olho que muitas vezes um relacionamento afetivo exige para nos tornar maior, que representa a superação de etapas e nos “adultificar”.

Pode existir cirurgia plástica, dinheiro e status em paralelo. Mas não há ser humano até hoje que controle a força do tempo, que nos faz envelhecer, perder a libido e a voracidade da juventude. Pensando que a vida tem começo, meio e fim, o gay no geral vive acreditando no eterno começo e esquece que o crescimento que nos leva a “paz no coração” é quando vivemos efetivamente histórias em nossas vidas de começo, meio e fim, de assumir por exemplo uma relação, assumir que o orgulho limita, assumir que a beleza física nos coloca como objetos, assumir que aceitamos a condição de objetos, assumir nossas imperfeições e assumir que nascemos sós e um dos desafios da vida é aprender a compartilhar o que somos com alguém de maneira muito mais íntima. Não dá para ser íntimo sem a proximidade, sem o convívio e sem entrega. Em outras palavras, vamos envelhecer e essa letargia de querer viver sempre o começo das histórias que nos parece mais excitante e boa vira uma armadilha: quando nos damos conta estaremos inevitavelmente velhos.

Me preocupa ver a “minha classe” vivendo essa frequência de um eterno começo, deixando abertura e possibilidades com tantas pessoas mas, de fato, não concebendo nem realizando nada em profundidade. Apenas numa aparente “intensidade”.

Precisamos sim nos preocupar com o lastro de relacionamentos. Lastro, nesse ponto, significa a vivência que nos torna experientes, confiantes de nós mesmos a ponto de não nos sentirmos desconfiados a todo momento.

Talvez, num futuro nem tão distante, com meu espírito empreendedor, montar uma franquia de asilo para gays pode ser uma boa. Serão clientes idosos, endinheirados, nível A e sozinhos.

Felicidade me parece mais um bem estar que vem de dentro e nos traz um tipo de paz íntima, do que aquela imagem aparente, “reluzente” e que “sem querer” tem o propósito de atrair o olhar alheio.

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Para um namoro gay dar certo é importante se ligar! – Parte 3

Amizades

Pra começo de conversa, quando estamos em um namoro, subentende-se um interesse mútuo de um conhecer ao outro e essa ideia tem a ver com momentos de intimidade, conversas e percepções sobre a pessoa. Amigos são sempre benvindos mas é importante saber em qual dose e, certamente, não é a mesma de quando estamos solteiros. Os amigos podem até reclamar do certo distanciamento, mas lembre-se de uma máxima da amizade: o amigo sincero pode ficar meses ou anos distante que, quando se reencontra com você parece que foi ontem que viu pela última vez. Amigos desse tipo são poucos e a gente conta nos dedos. Mas o outro tipo de amizade, que pode cobrar frequência, e impõe tipos de condições pela amizade, amigos de balada e de diversão, esses, a gente pode ter novos com bastante facilidade. Já a amizade fraternal, sincera é praticamente insubstituível e se leva tempo para se construir.

Amizades e relacionamento afetivo combinam bem quando existe sinceridade no sentimento de todos. A gente sabe ou costuma desconfiar quando um amigo pode ter uma segunda intenção com a gente. Esse sim, no meio de nosso namoro pode trazer alguns problemas. Por isso, é importante ficar bastante atento!

No caso de casais gays femininos, as meninas costumam se afundar no relacionamento a dois ao extremo! Isso também não é bom. O que quero dizer é que nem oito, nem oitenta. É totalmente possível conciliar vida social com amigos com o relacionamento. Mas namoro precisa se tornar prioridade! Coletivizar é bacana mas só funciona bem se sabemos colocar limites, se sabemos medir o ciúme dos amigos pois, a grande verdade é que amigos gays, a fundo, gostam da mesma coisa! A chance de misturar é maior.

Individualidade

Quando a gente está namorando, e normalmente no começo da relação, a paixão é tanta que parece que o ar que a gente respira precisa ser do namorado. E isso tudo é muito válido, embora um monte de gays tenham medo de cair nesse tipo de encatamento. A paixão anestesia, vicia e muitas vezes a gente se perde na outra pessoa por gostar tanto. Mas, com o tempo, é natural e normal as intensidades da paixão ficarem mais leves. Nessa hora é bastante importante a gente entender a individualidade do namorado. A paixão cega e quando a gente volta a enxergar, lembramos que cada um tem a sua individualidade, família, objetivos pessoais, sonhos e particularidades.

Bastante importante a gente ficar ligado nessa ideia da individualidade. O moderno hoje, ou até mesmo o evoluído, é cada um desenvolver suas próprias vidas, que tem desafios particulares e caminhos próprios. É totalmente possível conciliar o respeito à individualidade com um namoro.

Para que isso aconteça e a relação não fique sufocante, os toques do “+amor” que me referi no primeiro capítulo dessa sequência de posts devem se estabelecer com consciência. Assim, aprender a entender o sentido da amizade no relacionamento e dividir o que é individualidade e o que pode ser compartilhado na relação são conscientizações importantes.

Bons relacionamentos afetivos dão a sensação de soma, de estar acrescentando algo, de trazer um tipo de segurança para que a gente siga em frente com os nossos objetivos individuais. Bons relacionamentos nos trazem paz e não desconfiança ou aflição. Saiba se assegurar em um relacionamento sem neurotizar!

A consciência da individualidade dá sentido para o companheirismo e vice-versa.

Eis então mais algumas dicas básicas para que namoros gays frutifiquem por aqui, ali e em qualquer lugar!

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Para um namoro gay dar certo é importante se ligar! – Parte 2

Diversificação

Relacionamento tende a cair na rotina. Rotina nem sempre é vista com maus olhos, mas na maioria das vezes é, principalmente para os casais gays e jovens que estão ainda cheio de curiosidades pelo mundo a fora. Rotina e jovialidade nem sempre combinam, mas isso não quer dizer que o casal precisa sair todos os finais de semana e cair na balada!

As vezes, esse é um mal hábito dos namorados gays. Começam o relacionamento mas não “puxam o freio” de alguns costumes que não “combinam” quando se está namorando.

Quando estamos juntos com uma pessoa, necessariamente precisamos continuar frequentando o meio GLS com a mesma intensidade de quando estamos solteiros? A resposta “não” parece óbiva mas na prática muitos homens gays querem estar em um namoro, mas ao mesmo tempo têm a necessidade de manter alguns hábitos de lugares e pessoas. Será que a gente sabe o que cabe no “pacote” de um relacionamento e o que cabe no “pacote” do solteiro? Nem sempre a gente pensa a respeito e acha que pode misturar tudo e, as vezes, alguns costumes da vida solteira podem criar ruídos na relação.

É importante o casal fazer viagens, conhecer lugares diferentes e proporcionar um ao outro novas referências de estilo de vida, gostos e percepções das coisas. É importante um estar aberto ao outro para propostas diferentes, que fujam dos costumes.

Frequentar as famílias é legal, seja como os “amigos inseparáveis” para os gays que não são assumidos, seja como namorados para aqueles que são assumidos e que os familiares tratam com naturalidade e respeito. Para quem gosta de família ou para aqueles que não se deram essa oportunidade, conhecer tios, avós e primos pode ser uma experiência bastante divertida.

Viagens de casal costumam ser incríveis. Hoje em dia hotéis, motéis, pousadas e resorts, em suas maiorias, priorizam 100% o cliente independentemente das intimidades.

Nessas situações diversas, além de poder conhecer lugares diferentes, quando feito em casal, temos a oportunidade de apresentarmos nossas intimidades um ao outro. Normalmente ficamos mais relaxados ou “desarmados” quando saímos da rotina diária e das obrigações. Não é à toa que dizem que as pessoas se conhecem melhor quando viajam juntas. Nessas situações nos desprendemos das responsabilidades e passamos a ter como foco um ao outro. Tomar sorvete na praça, andar de bike ou a pé, caminhar na praia, cozinhar juntos, fazer trilhas, passear no shopping e assistir cinema: criatividade, disponibilidade ao companheiro e cenários diferentes são experiências que enriquecem a própria relação.

No meu caso, para dar um exemplo simples, nunca fui muito fã de seriados de tevê. Mas no meu namoro já devorei “Lost”, vi alguns capítulos de “Sexy and The City”, tenho acompanhado com meu namorado todos os episódios de “The Walking Dead” e vez ou outra ouço as versões que o pessoal do “Glee” faz com as músicas para criticar bem ou mal (rs). Parece uma situação besta, simples, mas o fato d’eu entrar no “universo de referências” do meu namorado tem um sentido gigante de aproximação e aceitação.

Não sendo música sertaneja, axé e pagode estou aberto às musicalidades!

[Próximo post falo de amizades e individualidade]

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Para um namoro gay dar certo é importante se ligar! – Parte 1

Creio que uma das especialidades do Blog Minha Vida Gay é o assunto “relacionamento gay” cujas dicas muitas vezes se aplicam para as pessoas no geral, independentemente da sexualidade. Não me sinto o indivíduo mais “expert do mundo” no assunto, mas confesso ter acumulado a experiência de namoros e um casamento bem sucedido, mesmo com os términos nesses 12 anos como gay assumido. O que da validade para uma relação? O fato de durar eternamente ou as experiências que adquirimos enquanto nos colocamos fiéis a uma pessoa? Creio que a segunda tenha maior validade no momento que entendemos que adquirir intimidades com um parceiro ou parceira é uma conquista. É quando chegamos em um nível mais profundo de conhecer e reconhecer uma outra pessoa (e vice-versa) que as experiências de um relacionamento se dignificam. E esse processo, bem ou mal, tem prazo mínimo para valer.

Não acredito que em 6 meses é possível reconhecer uma pessoa e, na maioria das vezes, levamos anos para esse “reconhecimento de terreno” que é mutável, que é de descobertas e está constantemente se transformando. Imagine então que em meses é possível conhecer alguém? Não dá tempo. Todos nós estamos constantemente nos transformando e conseguir acompanhar as mudanças do companheiro (e suas mudanças), que afetam diretamente a relação é um dos segredos dentre tantos outros em um relacionamento afetivo, que é dificílimo de enumerar.

Quando a gravidade de “dois planetas” entram em sintonia, é o momento que temos para poder desfrutar das transformações químicas, físicas, mudanças mentais e comportamentais que um relacionamento nos proporciona. No final, se relacionar só nos traz bagagem e maturidade.

Amizade entre o casal

Esses dias assisti no YouTube um vídeo do psicoterapeuta Flávio Gikovate comentando sobre a importância da amizade num relacionamento afetivo. O terapeuta demonina como “+amor” aquelas relações cujas pessoas alcançaram um nível mais autêntico de amizade no relacionamento, superando os apegos e intensidades do amor que, na maioria das vezes, são as causas das crises em um relacionamento, dividindo espaço com o erotismo e a atração que são fundamentais para um casal. Assim, amizade e tesão, dividindo o mesmo espaço não garante a eternidade para o casal mas enquanto casais, colabora com o crescimento de cada indivíduo e enriquece a relação com experiências.

Concordo com essas afirmações, no momento que faço referência as minhas experiências de relacionamentos. Aquelas que não construíram um laço firme de amizade, como meu casamento, acabou gerando mais experiências pelas crises do que pelo bem estar de estar junto. E a ideia real de um relacionamento bem sucedido é que as crises, que são inevitáveis e fazem parte do processo de se relacionar, termine em acordos, convergências e concordâncias. Nesse ponto, a amizade em um relacionamento afetivo tem papel definitivo e exige esforço. Sem a amizade a chance de guardarmos mágoas, rancores e frustrações é muito maior.

Com o acúmulo desses sentimentos negativos, e acúmulo está diretamente relacionado a não resolver as questões individuais perante ao casal, a tendência é a relação se fragmentar. É quando vem aquela sensação de que a relação se perdeu ou de que “eu me perdi no namoro”.

No universo gay masculino, homem com homem, tem uma tendência a não querer discutir a relação. A famosa D.R. mais comum entre casais gays femininos é bastante evitado entre casais masculinos. Nós, homens, esquecemos que inclusive as D.R.s são também o exercício da amizade no relacionamento. D.R. para homens vira um termo pejorativo que na realidade nada mais é que conversa ou diálogo sobre os pontos que nos geram inseguranças ou dúvidas. Homem não tem dúvida? Não tem insegurança? Claro que tem. Mas nem sempre sabemos o que fazer com essas coisas.

Imagine almejar um namoro gay sem diálogo? Sem diálogo não há a exposição. Sem exposição não há a abertura da intimidade. Sem intimidade não existe relação. Existem outras maneiras mais “codificadas” de expor nossas intimidades ou desvios para “curar” nossas inseguranças. Mas, quando as inseguranças se manifestam em códigos, atitudes “estranhas” ou por sutilezas acabam dificultando o envolvimento, acabam dificultando o receptor de codificar. Em outras palavras, gays homens precisam ser mais práticos, abertos e por incrível que pareça – apesar de homens – ir direto ao ponto. Gay homem precisa, no geral, aprender a conversar com o parceiro, na mesma medida ou naturalidade que se coloca para a melhor amiga ou amigo quando quer compartilhar frustrações. Está aí mais um exemplo da influência do fator “amizade” em um relacionamento gay: sabemos conversar e trocar intimidade com o amigo, mas muitas vezes falhamos em trocar intimidades com o parceiro.

[No próximo post vou lançar devaneios sobre a diversificação, fator importante e que influencia diretamente os laços de um relacionamento]

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Mulheres que se apaixonam por gays

Não é muito difícil de acontecer de uma mulher ou uma menina se sentir envolvida por um amigo gay. E por que será que isso ocorre?

Não consigo compreender ao certo ou dar forma total as respostas pois, talvez, eu seja um gay que me identifico pouco com a figura feminina. De qualquer forma, acho que vale um ensaio já que esse tema acontece com bastante frequência na vida de algumas mulheres e na vida de alguns gays.

A situação, de uma amiga envolvida por mim, já ocorreu uma vez, embora os verdadeiros sentimentos pairaram apenas nas entrelinhas ou sugestões até hoje. Talvez por orgulho, talvez pela simples falta de clareza mesmo.

As mulheres muitas vezes se identificam com um amigo ou um colega gay e tudo começa com uma boa amizade. Parte dos gays, aqueles que têm mais afinidade e intimidade com mulheres aprendem a entender as sutilezas e as nuances do ser feminino e, muitas vezes, correspondem com argumentos, ideias e atenção numa frequência “perfeita” para a mulher. Sabemos o quanto é difícil a medida certa do sexo feminino! E os gays as vezes captam.

O homem gay em essência difere apenas do gosto do sexo que é pelo igual em relação ao homem heterossexual que adora o sexo oposto. Mas, por algum ou muitos motivos, o homem gay na maioria das vezes costuma também negar características “rudimentares” ou machistas do homem heterossexual, como a truculência, a falta de delicadeza, a tendência a galinhagem e, principalmente, a maneira desatenta do homem heterossexual perante as mulheres. O amigo gay, acima de tudo, sabe dar atenção, sabe oferecer um abraço apertado e sabe a hora de fazer um carinho. No mínimo sabe vender muito bem essa imagem! (rs)

[Curioso que esse homem gay, tão hábil com as mulheres, na hora de desenvolver seu próprio relacionamento com outro homem muitas vezes acaba se confundindo! rs]

Posso relatar meu caso com minha amiga “Bia” para ilustrar esse post. Cursamos o colegial juntos e no começo ela me odiava (rs). Dizia que eu era grosso, antisocial, nerd e não me queria como parte da turma. Por um lado ela tinha razão. Eu tinha vivido nove anos no Colégio Pio XII, de freiras americanas e burgueses do Morumbi para entrar numa escola estadual de bairro. O choque foi grande: cultural, social, estético e tudo mais. Para um adolescente de 16 ou 17 anos o preconceito servia como proteção. Nos primeiros meses de colegial eu era meio que um caramujo reconhecendo o território e, assim, essa imagem de antipático faria até um sentido (rs). O de nerd até hoje é fato, reconheço. Só que agora sou geek, muito mainstream (rs).

Com bastante esforço e jeito fui quebrando aquela imagem grosseira que a Bia fazia de mim. Morávamos bastante próximos e naqueles anos de colegial, que a gente mais curtia a vida do que estudava, passávamos um bocado de tempo juntos: era cinema, passeio no Shoppping, churrascos, jantares, almoços, viagens ao sítio do amigo “rico” e muita diversão. Estudar que era bom, terminava em baladas adolescentes na garagem de alguma das casas ao som de música dance (rs).

Fui me tornando homem e a Bia, mulher. Realmente tínhamos uma grande afinidade até a fase da faculdade quando todos dessa turma se distanciaram um pouco. Mas eu e a Bia continuávamos a nos ver com mais frequência. Para meus amigos era óbvio que tínhamos alguma história maior. Mas para mim, que carregava a verdade da homossexualidade do lado de dentro, essa hipótese era muito remota. Jamais imaginara transar com a minha amiga Bia! Com toda convicção a colocava num altar do puro afeto e da fraternidade. Sexo, jamais. E como eu ia saber que as mulheres se encantavam por essa mistura de afeto autêntico e amizade? Tonto como eu, jamais (de novo)!

Fomos crescendo e com meus 23 anos a Bia foi a primeira pessoa a saber da minha sexualidade. A considerava uma irmã. Lembro que numa noite, no meu carro em frente de sua casa depois de uma volta qualquer, resolvi contar a verdade. A aceitação foi imediata, embora ela se expressasse com grande surpresa. Não imaginava que poderia ser verdade, mas entendia o sentido da coisa a medida que fui expondo a história toda. Entendia a representação do meu “amigo” Lutier e aos poucos minhas palavras foram criando sentido. E eu falava como contar para ela era importante pois assim alcançaríamos uma intimidade muito mais valiosa.

A amizade continuou forte e ela me acompanhava nas primeiras baladas GLS. Aliás, foi na Bia que o Beto chegou para conversar. A Bia ficou impressionada com a beleza do Beto e esse foi o mote para que os dois começassem a bater um papo. Isso, há mais de 10 anos atrás (WAF! Estou velho!)

Bia pra cá, Bia prá lá e a medida que ia me assumindo e que ia assumindo a minha empresa, fui me distanciando das pessoas e passava meu tempo livre com meu primeiro namorado, o Lutier.

Teve uma noite que ela me ligou aos prantos. Se sentia sozinha, desamparada e, naquela situação, eu não compreendia bem ao que ela se referia. Me mostrei plenamente disposto para um encontro e nos vimos. Ela estava começando um rolo com um chefe do trabalho, que era casado e tinha uma filha. Obviamente aquela verdade foi indigesta, mas mediante a sua aceitação quanto a minha homossexualidade, num sentido de troca, falei que daria todo o apoio se ela estivesse realmente gostando. Mas de fato sua posição de amante me incomodava. Não era aquilo que esperava da minha amiga. Mas até entender que eu não tinha nada a ver com aquilo, fui entender há bem pouco tempo atrás!

Sua relação passava por altos e baixos críticos. Brigas extremas, reaproximações exageradas e uma mistura bastante confusa de vida pessoal e profissional. Acabei me envolvendo no momento que seu chefe virou também meu cliente. Daí, ouvia comentários de um lado e de outro, imaturamente sem saber direito como lidar. Passaram anos vivendo nessa gangorra e parecia que precisavam me colocar no rolo!

Em 2006 eles romperam por um tempo e, como eu e Bia comemorávamos aniversários com diferenças de dias, resolvemos fazer uma festa juntos em minha casa. Ela chamou um grupo de amigos, eu chamei toda minha turma e na época eu já estava casado.

A “Coca”, uma de minhas sócias hoje tinha acabado de entrar na empresa. A Coca é uma morena bastante atraente, do tipo “beleza bruta”, feminina mas com um jeito firme, difícil de descrever. O que sei é que não são poucos os homens que a notam quando estamos na rua.

A Coca, numa situação de festa com bebidas e comidas na faixa resolve ir um pouco além. Passou mal e rapidamente, eu e um amigo a levamos para dormir num dos quartos, no andar de cima da casa. Ninguém se incomodaria com ela, ela não incomodaria ninguém.

Sem entender bem, minha amiga Bia e suas duas primas resolveram tirar um sarro da Coca: sobem até o quarto, enchem seu rosto de pasta de dente e colam seus olhos com spray de cabelo! Coca desfalecida, um amigo me dá um toque e vou conversar com a Bia: “Mas Bia, por que você está fazendo isso?!”.

Bia: “Essa menina estragou minha festa! Acho uma baixaria uma menina ficar bêbada desse jeito!”.

Eu: “Pára com isso Bia, ela nem baixaria fez. Passou mal no sofá, dormiu e já trouxemos para o quarto!”.

Bia: “É, vai ficar defendendo ela, seu troxa?!”

Eu: “Bia, não vamos ficar discuntindo agora, vai. Pára com isso”.

Ela desce as escadas batendo o pé, se junta em meio a todos os convidados e lança para mim assim: “Vai tomar no cú, meu. Fica defendendo essa menina!”.

Ariano versus ariana. Na hora que ela me manda “tomar no cú” meu sangue bate na tampa e acabo com a festa dela na hora. Bia leva todos seus convidados embora e a minha turma continua. Perplexo, cheguei para nossos amigos em comum e questionei: “Meu Deus! O que deu na Bia?!”. E meus amigos, longe do meu marido lançam: “Ué, MVG, você não sacou?”.

Olhei para eles com uma dúvida maior ainda e questionei: “Como assim, ‘não sacou’?!”.

Meus amigos: “Ciúmes, MVG. Ciúmes de você”.

Confesso que essa hipótese de ciúmes começava a fazer maior sentido, embora fui entender com mais clareza muito tempo depois. Talvez eu não quisesse enxergar ou aceitar a possibilidade da minha melhor amiga estar envolvida por mim. De fato ela nunca expressou um sentimento maior, nada que fosse óbvio, literal ou claro, embora ela sempre me achasse um lerdo.

Depois desse incidente ficamos anos sem falar. Apesar de continuar a morar perto nunca mais chegamos a nos cruzar por aí. Em 2010 resolvo mandar um e-mail a ela dizendo que tudo estava tranquilo, que não havia ressentimentos e que, se por ventura a gente se cruzasse na rua, não gostaria de virar a cara ou passar batido.

Minha amiga Bia responde da seguinte forma: “Está tudo bem. Vivíamos como no seriado Dawson’s Creek. Você era o Dawson e eu era a Joey”.

Foi nesse comentário, mesmo que ainda em entrelinhas, anos depois de um convívio bastante intenso que terminou de uma maneira radical, que fui definitivamente entender o que se passava com a minha amiga Bia. Tenho um certo receio de encontrá-la, muito provavelmente pelo fato de poder despertar nela um sentimento mal resolvido. A paixão por mim, lerdo ou não, nunca foi evidente. Mas por parte dela era isso, como em um seriado adolescente onde duas pessoas que se amavam muito, no final, terminavam separados.

Eu definitivamente amei minha amiga Bia, mas era livre ou em uma outra sintonia, longe da possessividade de uma paixão. Da parte dela talvez não fosse o mesmo.

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Sexo gay no Brasil precisa ainda ser melhor compreendido

Não sei se é bom ou ruim o fato da maior ocorrência de busca no MVG ainda abordar as temáticas de gays ativos e passivos. Me incomoda um pouco os gays brasileiros ficarem tão ligados a essa dualidade que é excludente.

É extremamente limitante ter que pensar que nós, gays, precisamos escolher ou decidir pela passividade ou atividade na hora do sexo, é como só fosse possível ser assim ou assado.

E quando dois gays ativos ficam interessados um pelo outro? Ou quando dois gays passivos se sentem apaixonados? Na hora “H” essa dualidade sexual tem que interferir a ponto de impedir que o relacionamento se desenvolva? Qual o real sentido de dividir em dois, gay ativo e gay passivo?

A mim não faz sentido nenhum. Na realidade o sentido diz respeito a falta de lucidez e clareza de que, como gays, não precisamos nos dividir em duas partes. Não existe complementariedade nessa relação, entre dois homens. Essa dualidade tem até vertentes machistas e preconceituosas, colocando o gay ativo como “homem” e o gay passivo como “mulher”.

Quando pensamos no universo heterossexual, quando o homem tem um pênis e a mulher uma vagina, existe um sentido complementar: “um objeto fálico e um buraco”. E mesmo assim, nada impede de um homem heterossexual receber um “fio terra” e sentir o prazer que todos os homens podem ter por trás.

Mas em quatro paredes, quando são dois homens, não faz sentido nenhum criar essa divisão, que é totalmente psicológica e não fisiológica. É psicológica e social e, pensando assim, acabamos nos limitando. É como se dois homens “ativos” não pudessem se relacionar completamente, ou dois homens “passivos” também tivessem essa barreira para o relacionamento se tornar pleno.

Para sermos gays precisamos nos classificar dessa maneira, ou optamos por essa maneira para tentar imitar o que é socialmente aceito?

Aqui no MVG, sempre que puder ou achar pertinente, vou contestar essa postura da maioria dos gays brasileiros ter que definir entre o sexo ativo ou o sexo passivo. No momento que é fato a existência do prazer anal para todos os homens, quais os sentidos psicológicos e sociais que fazem uma pessoa ter que definir por essas duas opções?

Opção que na realidade nos limita. Quem é ativo tem medo de dar e a dor é somente um reflexo dos bloqueios da cabeça de cima. E quem é passivo tem medo de se descaracterizar de alguma forma. Aliás, ambos têm medo de se descaracterizar. Mas que insegurança é essa que nos prende a essas opções excludentes?

O gay passivo precisa de um “homem” e o gay ativo precisa exercer uma “masculinidade”?

E ainda, para complicar mais, o gay mistura atividade e passividade com ser gay masculinizado ou ser gay afeminado. Tudo misturado assim fica difícil! A gente fica acreditando que um gay ativo tem trejeitos masculinos e um gay passivo tem trejeitos mais femininos e assim restringimos tanto as possibilidades que a chance de um relacionamento dar certo não passa de 25%!

Será que ser gay deve ser tão complexo e restritivo assim? Será que não está na hora de cair a ficha e perceber que os modelos heterossexuais de homem e mulher não se aplicam entre os gays?

Os gays brasileiros precisam criar seus próprios modelos, sem as referências da heterossexualidade, partindo do pressuposto verdadeiro que o prazer anal nos homens é fisiologicamente possível. Tentar aplicar valores heterossexuais no universo gay é consentir com modelo gay vinculado ao modelo heterossexual, é aceitar um tipo de dependência.

Gay ativo e gay passivo são duas ideias limitantes que não nos complementam. São ideias que tentam “heterossexualizar” a nossa realidade, talvez, para nos sentirmos mais aceitos ou fazer algum sentido. Mas, de fato, não faz sentido nenhum tentar replicar valores heterossexuais nesse caso.

Gay que é gay resolvido na questão sexual se permite de todas as formas. Do contrário fica a pergunta para pensar: “Por que temos gosto em dividir o universo gay entre ativos e passivos?”.

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